Putin reeleito: a leste, nada de novo

Sem surpresas, Vladimir Putin foi reeleito Presidente da Rússia este domingo. Com cerca de 76% dos votos, estabeleceu um recorde pessoal e subiu dez pontos comparativamente às últimas presidenciais, em 2012. Paramos aqui porque falar de estatísticas na Rússia de Putin é alinhar em jogos viciados.

E esta eleição presidencial estava garantida desde o início. Tudo se torna mais fácil quando a oposição não existe. A alternativa que causava incómodo foi afastada há meses e dava pelo nome de Alexei Navalny, cujos apoiantes viam como um homem capaz de capitalizar os descontentamentos em torno “da pobreza crescente e da corrupção ao mais alto nível”, escreve a versão europeia do jornal Politico. Navalny, recorde-se, acusa o Kremlin de o ter posto fora da corrida. No fundo, “Putin encenou um simulacro de democracia, ofereceu a si próprio mais um mandato e enfrentou pouca oposição durante todo o processo”, resume a Vox.

Que a reeleição já estava resolvida também se notou pela maneira como o Presidente encarou a campanha: não deu a conhecer nenhum programa eleitoral, nem tomou parte em debates televisivos. Além disso, decidiu participar em apenas duas concentrações, em locais altamente simbólicos: Moscovo, a capital, onde está concentrado todo o seu poder; e Crimeia, região ucraniana anexada em 2014 e a manifestação suprema do revisionismo da Rússia “putiniana”.

Isto leva-nos a antecipar o que virá nos próximos seis anos: mais do mesmo. Uma autocracia largamente empenhada em desafiar e desestabilizar o mundo ocidental, ora na política externa, ora nos processos democráticos internos, numa tentativa de se assumir como uma espécie de líder dos novos “não-alinhados”.

No entanto, este novo mandato também deverá ser uma fase de preparação à transição de poder. A constituição russa não permite mais do que dois mandatos consecutivos, o que significa que Putin teria de se afastar em 2024. Conhecendo a peça, não nos surpreenderia que, um dia, também ele decidisse rever a lei, como qualquer autocrata motivado em eternizar-se no poder (lembremos o caso de Xi Jinping, na China).

Mas esta poderá mesmo ser a derradeira parte do seu legado. Vladimir Putin ancorou-se no poder, já caminhamos para 19 anos. É uma geração inteira, um ciclo de história em que a Rússia foi moldada à sua imagem e às regras do seu jogo. O regime actual está tão ligado à sua figura que essa dependência vai inevitavelmente mergulhar a Rússia numa fase de total indefinição. “A elite russa já começou a preparar a sua partida, colocando-se em posição para um sistema pós-Putin”, analisam os britânicos do The Economist. Mas nada garante que esse sistema irá perdurar — sobretudo quando as bases que o sustentam foram estabelecidas em torno da influência de uma só pessoa. E num país em que a própria democracia falhou, o que virá depois disso?

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Trump escolheu um “falcão” para liderar a diplomacia americana

Basta uma rápida pesquisa nos jornais de referência dos Estados Unidos (EUA) que a análise será unânime: o próximo Secretário de Estado de Trump é visto como um “falcão”. Ou seja, representa a linha dura, uma postura mais agressiva e intervencionista no teatro internacional. Para quem tem de liderar a diplomacia de um país, não se trata de um cartão-de-visita promissor.

Após demitir, via Twitter, a figura praticamente ausente de Rex Tillerson, o Presidente dos EUA indicou Mike Pompeo, Diretor da CIA, para o cargo. “Temos um relacionamento muito bom, por qualquer razão, química, o que for. Eu sempre, desde o início, desde o dia um, dei-me bem com ele”, afirmou Trump, alguns minutos depois de Tillerson ter sido despedido. Aparentemente, ambos ter-se-ão aproximado em “briefings” regulares na Casa Branca.

Mesmo que não possamos atestar o “relacionamento muito bom”, a verdade é que o Diretor da CIA está alinhado com as ideias do Presidente nas grandes questões de segurança nacional e política externa. “Trump está à procura de pessoas que vêem qualquer problema como uma ameaça que tem de ser lidada com força militar, do que uma questão que possa ser resolvida diplomaticamente”, referiu o antigo embaixador Richard Boucher, em declarações à revista New Yorker.

O QUE DEVEMOS ENTÃO ESPERAR?

É preciso conceder: no que diz respeito ao cargo, Pompeo tem mais experiência do que Tillerson, pelo menos em questões de segurança. O (ainda) chefe das secretas esteve no exército durante cinco anos, período no qual patrulhou o muro de Berlim, em plena Guerra Fria, e serviu na Guerra do Golfo. Além disso, também está familiarizado com a politiquice de Washington do que o seu antecessor, uma vez que foi congressista durante seis anos. “Pompeo fará um melhor trabalho em colaborar com o Departamento [de Estado], em vez de destruí-lo”, comenta Robert Kagan, um analista citado pela New Yorker, em alusão às consequências da gestão de Tillerson.

Todavia, isto não significa que seja propriamente benéfico. Sobretudo tendo em conta as visões de Pompeo relativamente a dossiers-chave para os EUA. Numa altura em que se aproximam grandes descisões a propósito da Coreia do Norte (a possível cimeira entre Trump e o ditador Kim Jong-Un) e do Irão (espera-se uma decisão sobre o acordo nuclear em Maio), tocam as sirenes.

Relativamente a Pyongyang, Pompeo parece determinado numa mudança de regime. Ainda esta semana, afirmou que os EUA não podiam fazer “nenhuma concessão” nas negociações futuras, em entrevista aos “hard-liners” da Fox News. Um conselho que de mais-valia tem pouco e só serve para minar qualquer tipo de diálogo construtivo. Por outras palavras, aquilo que Trump gosta de ouvir.

Mudança de regime no Irão também procurou ele forçar nos seus tempos de congressista, além de ser um conhecido opositor do acordo nuclear. Aliás, quando este completou o primeiro aniversário, Pompeo atirou: “o Congresso tem de agir para mudar o comportamento iraniano e, em última instância, o regime iraniano.” Mais uma vez, coisas que Trump gosta de ouvir, dado que ambiciona rasgar o acordo há muito tempo, desde o período de campanha eleitoral.

E, a partir do momento em que o próximo Secretário de Estado possui este tipo de ideias, a diplomacia dos EUA encaminha-se diretamente para um beco sem saída. Isto porque Pyongyang e Teerão estão mais ligados do que poderíamos pensar. “Rasgar o acordo com o Irão”, explica o jornal britânico Financial Times, pode sabotar qualquer acordo com Kim Jong-Un, “uma vez que arrisca-se a convencer os norte-coreanos de que os EUA não são de confiança”, na hora de honrar compromissos. Significa também que Pompeo poderá entrar em conflito com outros membros da Administração, como é o caso de Jim Mattis, Secretário de Defesa, que defende um prolongamento do acordo nuclear iraniano e dos esforços diplomáticos com a Coreia do Norte.

Enquanto aguardamos desenvolvimentos, a escolha de Pompeo mostra que a Casa Branca está cada vez mais na esfera dos “falcões”. Apesar da fraca prestação como chefe da diplomacia, Tillerson ainda era entendido como uma espécie de voz de bloqueio aos impulsos de Trump. Há pessoas que não têm dúvidas. “Como Secretário de Estado, Pompeo iria reforçar as orientações mais destruidoras de Trump em diversos assuntos-chave”, sublinha Paul R. Pillar, ex-espião e membro do Centro para Estudos de Segurança da Universidade de Georgetown, em artigo de opinião para o jornal New York Times. A linha dura aperta e o futuro da ordem internacional encabeçada pelos EUA volta a não augurar bons presságios.