Trump na ONU. As gargalhadas do descrédito

Bem sabemos que o mundo inteiro está povoado de “criaturas” que se acreditam maiores que o mundo inteiro e vivem num total desfasamento da realidade. Donald Trump é um exemplo notório disso mesmo e, por isso, esta terça-feira teve a resposta que merecia.

O que aconteceu na Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU), quando o Presidente dos Estados Unidos (EUA) fez o seu discurso, é um momento-chave da diplomacia internacional. Atacando a globalização e apregoando o nacionalismo, Trump, que tanto persegue as ditas “fake news”, procurou também ele propagar factos alternativos, ao referir que praticamente nenhuma Administração conseguiu alcançar o que a sua alcançou em menos de dois anos.

Os diplomatas presentes brindaram-no com gargalhadas, reflexo do profundo descrédito que os EUA ganharam no teatro mundial. Porque o crescente isolacionismo americano não é uma mera análise política, é uma escolha política deliberada, assumida, de um homem  que tenta vender uma visão do mundo ultrapassada e minar uma posição global (com todas as variantes ideológicas associadas) que se instalou desde o final da Segunda Guerra, apenas para satisfazer uma base eleitoral que se alimenta das suas mentiras e vê nelas um atenuar dos seus receios. Como sublinha um artigo de opinião do Washington Post, “(…) esta intervenção foi para consumo doméstico, um discurso de campanha contra o mundo para apelar à sua [Trump] base nacionalista”.

No entanto, palavras destas não são recebidas meramente no plano doméstico. Têm eco em sítios muito específicos do mundo e em nichos políticos concretos. Quando o líder da superpotência mundial despeja coisas como “nunca entregaremos a soberania da América a uma burocracia global que não foi eleita, nem presta contas”, em alusão à ONU, outras “criaturas” que se acreditam maiores que o mundo inteiro esfregam as mãos e apontam o dedo para dizer aos vulneráveis: “venham por aqui”.

Mas não. Mais do que nunca, é importante não irmos por aí.

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No regresso à vida eleitoral, Obama apelou à consciência da América

Após oito anos na Sala Oval, Barack Obama retirou-se de cena e, de lá para cá, tem-se mantido à distância do debate público sobre a Administração liderada por Donald Trump. Uma figura que o ex-Presidente dos Estados Unidos apenas tem almejado em breves comunicados e, habitualmente, quando se tratam de políticas suas revertidas pela actual liderança. “Durante os últimos dois anos, a postura de Barack Obama relativamente ao seu sucessor tem sido evasiva e alusiva”, escreve a revista The Atlantic. De facto, Obama manteve-se à margem das críticas, raramente nomeando Trump nas suas intervenções.

No entanto, o carismático ex-Presidente quebrou o silêncio, esta sexta-feira. Na Universidade do Illinois, perante alunos e professores, Obama disse tudo o que tinha para dizer. E foi só o início da sua reaparição pública: o discurso, a sua primeira grande condenação a Trump, também deu o mote para as demonstrações de apoio que fará nos próximos tempos a candidatos democratas às eleições intercalares de Novembro. “O seu exemplo é importante para o Partido Democrata porque, desde a derrota de Hillary Clinton, não existe um líder claro que dê o mote para todo o partido”, analisa a The Atlantic.

Por isso é que arrancou logo com um apelo ao voto, que soou mais a aviso. “(…) Têm de votar, porque a nossa democracia depende disso”, atirou à plateia, para depois prolongar: “estes são tempos extraordinários e são tempos perigosos”. Uma democracia colocada em risco, acredita Obama, pelos tempos desta presidência. “Devem preocupar-se com o nosso rumo actual e exigir uma restauração da honestidade, da decência e da legalidade do nosso governo”.

A ameaça à democracia foi realmente a ideia-chave de todo o discurso de Obama, que dela se serviu para reflectir sobre a divisão da sociedade americana. “Não começou com Donald Trump. Ele é um sintoma, não a causa.” Para o antigo líder da Casa Branca, homens como Trump aproveitam-se do “medo” e do “descontentamento” de vários segmentos da população para imporem a sua ordem, mesmo que assente num castelo de mentiras e perseguições. Como esta Administração é: da pressão ao sistema judicial, das ameaças à liberdade de imprensa, da discriminação racial e sexual – com Trump, já houve tudo.

O discurso de Obama tem o impacto que tem, não apenas pelo seu carisma, mas, essencialmente, por apelar à consciência da sociedade – e, inevitavelmente, à sua responsabilidade política. O ex-Presidente pensa no governo em termos construtivos com a meta de alcançar uma justiça social e económica. Mas, por mais optimistas que sejam os fins, nada deve ser dado por garantido. As recentes derivas da política mundial assim nos recordam. Apesar de este momento ser, como refere um artigo de opinião do jornal Washington Post, “uma inesperada oportunidade” para Obama “escrever um novo posfácio no seu legado”, a sua reaparição nas fileiras democratas deve ser entendida como uma voz norteadora, mas não como uma cura dos males. Porque, como questiona a The Atlantic: “se os impulsos nobres de Obama não foram capazes de impedir Trump de se tornar Presidente, quão prováveis serão em destituí-lo e reparar os estragos?”