As novas rupturas no sul

Foi uma semana de reviravoltas. Considerando o passado recente de instabilidade política em Itália parecia que, a dada altura, o país iria afundar-se ainda mais nessa espiral. O verniz estalou quando o Presidente Sergio Mattarella bloqueou a escolha de Paolo Savona, um economista com sérias dúvidas relativamente às vantagens do euro, para a pasta de Economia, sob proposta dos líderes do Movimento 5 Estrelas (M5E) e da Liga, liderados por Paolo Di Maio e Matteo Salvini, respectivamente. As negociações caíram, a bolsa caiu, os mercados afundaram e a situação não melhorou quando Mattarella designou Paolo Cottarelli, um antigo director do Fundo Monetário Internacional para formar governo. Isto após umas eleições que colocaram dois partidos críticos do “establishment” no topo da política italiana. Di Maio gritou “impeachment” (mesmo quando o bloqueio a Savona teve fundamento constitucional) e Salvini reclamou eleições antecipadas. Aliás, o responsável pela Liga torceu o nariz a novos apelos do M5E – com uma explicação: as sondagens indicavam que o seu partido sairia ainda mais reforçado nas urnas. E, com isso, o cargo de Primeiro-ministro ali tão perto.

Quando nada o fazia prever, M5E e Liga anunciaram um acordo para formar governo. Di Maio e Salvini, vice-Primeiros-ministros, acumulariam as pastas do Trabalho e do Interior. Savona, ironicamente, ficaria afinal com os Assuntos Europeus. Funcionou. Uma espécie de governo anti-sistema, porventura o primeiro do seu género por estas bandas, a agitar a Europa ocidental.

E Bruxelas reagiu com desconforto. A perspetiva de uma chefia italiana sem grandes amores pelo projecto europeu, não augura horizontes particularmente sorridentes. Sobretudo depois do “Brexit”, a norte. Sobretudo depois dos confrontos com Polónia ou Hungria, a leste. Sobretudo com o ressurgimento da extrema-direita nos seus países mais desenvolvidos, casos de França, Alemanha e Áustria. Agora, Itália, que certamente entrará em confronto com as instituições em matérias como o orçamento da União Europeia ou a imigração. Neste último ponto, que não hajam dúvidas sobre o pensamento extremista de Salvini, agora empossado com a administração interna. Mais uma vez, Bruxelas olha novamente para um Estado Membro como laboratório catalisador de potenciais “spill-over”. A questão aqui é que a parada subiu porque este “experimentalismo” consolidou-se na terceira maior economia da zona euro.

Como refere o último editorial do “Corriere della Sera”, o actual quadro político revela “uma metamorfose ambígua, entre vontade de ordem e impulsos revolucionários, ancorada numa mistura de políticos e figuras professorais anónimas e sem verdadeiro peso político”. O que nos ajuda, de forma clara, a perceber que os italianos se cansaram do tradicionalismo na sua representação democrática. Como em tantos outros cantos da Europa.

E numa semana em que os terramotos políticos vieram de Itália, em Espanha operou-se o golpe final a Mariano Rajoy. O seu Partido Popular (PP) foi alvo de mais um escândalo de corrupção e, consequentemente, o seu governo acabou derrubado por uma moção de censura – a primeira vez que acontece na história da actual democracia espanhola.

A manobra veio do líder socialista Pedro Sánchez que, assegurando os votos de variadas forças políticas (o Podemos, de extrema-esquerda; os independentistas catalães), chegou à chefia de governo.

Certo é que esses partidos não votaram na eleição de Sánchez, mas sim na destituição de Rajoy. Encerrado esse capítulo, significa agora que Sánchez tem de pagar contas. E uma das contrapartidas é tarefa hercúlea: a resolução da complexa crise catalã. Como fará diferente de Rajoy, estando obrigado, por demanda do cargo, a proteger a Constituição – e, por conseguinte, a unidade de Espanha?

Além disso, o novo chefe de governo terá de lidar com uma força de oposição no parlamento muito mais musculada do que o seu partido, quando olhamos para o número de deputados do PP.

Espera-se de Sánchez uma liderança distante dos escandâlos que abalaram o PP de Rajoy. Restam-lhe dois anos de legislatura mas, hoje em dia, isso tem pouco significado. Um erro político pode facilmente levantar o coro de vozes a exigir eleições antecipadas. E o novo Primeiro-ministro pode não ter armas suficientes para vencer essa batalha.

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Putin reeleito: a leste, nada de novo

Sem surpresas, Vladimir Putin foi reeleito Presidente da Rússia este domingo. Com cerca de 76% dos votos, estabeleceu um recorde pessoal e subiu dez pontos comparativamente às últimas presidenciais, em 2012. Paramos aqui porque falar de estatísticas na Rússia de Putin é alinhar em jogos viciados.

E esta eleição presidencial estava garantida desde o início. Tudo se torna mais fácil quando a oposição não existe. A alternativa que causava incómodo foi afastada há meses e dava pelo nome de Alexei Navalny, cujos apoiantes viam como um homem capaz de capitalizar os descontentamentos em torno “da pobreza crescente e da corrupção ao mais alto nível”, escreve a versão europeia do jornal Politico. Navalny, recorde-se, acusa o Kremlin de o ter posto fora da corrida. No fundo, “Putin encenou um simulacro de democracia, ofereceu a si próprio mais um mandato e enfrentou pouca oposição durante todo o processo”, resume a Vox.

Que a reeleição já estava resolvida também se notou pela maneira como o Presidente encarou a campanha: não deu a conhecer nenhum programa eleitoral, nem tomou parte em debates televisivos. Além disso, decidiu participar em apenas duas concentrações, em locais altamente simbólicos: Moscovo, a capital, onde está concentrado todo o seu poder; e Crimeia, região ucraniana anexada em 2014 e a manifestação suprema do revisionismo da Rússia “putiniana”.

Isto leva-nos a antecipar o que virá nos próximos seis anos: mais do mesmo. Uma autocracia largamente empenhada em desafiar e desestabilizar o mundo ocidental, ora na política externa, ora nos processos democráticos internos, numa tentativa de se assumir como uma espécie de líder dos novos “não-alinhados”.

No entanto, este novo mandato também deverá ser uma fase de preparação à transição de poder. A constituição russa não permite mais do que dois mandatos consecutivos, o que significa que Putin teria de se afastar em 2024. Conhecendo a peça, não nos surpreenderia que, um dia, também ele decidisse rever a lei, como qualquer autocrata motivado em eternizar-se no poder (lembremos o caso de Xi Jinping, na China).

Mas esta poderá mesmo ser a derradeira parte do seu legado. Vladimir Putin ancorou-se no poder, já caminhamos para 19 anos. É uma geração inteira, um ciclo de história em que a Rússia foi moldada à sua imagem e às regras do seu jogo. O regime actual está tão ligado à sua figura que essa dependência vai inevitavelmente mergulhar a Rússia numa fase de total indefinição. “A elite russa já começou a preparar a sua partida, colocando-se em posição para um sistema pós-Putin”, analisam os britânicos do The Economist. Mas nada garante que esse sistema irá perdurar — sobretudo quando as bases que o sustentam foram estabelecidas em torno da influência de uma só pessoa. E num país em que a própria democracia falhou, o que virá depois disso?