Notas sobre as intercalares dos EUA

Eram consideradas um barómetro aos dois anos de presidência de Donald Trump. E, em parte, as eleições intercalares nos Estados Unidos (EUA) desta terça-feira, desferiram um golpe à actual Administração. Os Democratas recuperaram a Câmara dos Representantes (CdR) – mas os Republicanos também dilataram a maioria que já detinham no Senado, reduzindo o impacto da chamada “grande onda azul”. Resultado: dois partidos a cantar vitória. Apesar de, objectivamente, Trump ter perdido o controlo total do Congresso norte-americano.

A vitória dos Democratas na CdR vai certamente reorganizar o equilíbrio político em Washington e, como nota a revista The Atlantic, torna-se assim no “primeiro real contra-peso” a Trump. Controlar esta ala do Congresso, passando a liderar comissões, permite-lhes assim exercer um maior escrutínio sobre a Casa Branca. Já se fala em serem conhecidas as declarações de impostos que o Presidente nunca tornou públicas. E, mais improvável, também se levanta a hipótese de dar início aos procedimentos para um processo de “impeachment”. A nova disposição do Senado é um desincentivo e, por agora, o melhor será mesmo esperar pela conclusão da investigação de Robert Mueller para tomar qualquer passo nesse sentido. Espera-se dos Democratas cautela política num contexto em que a sociedade se encontra exaustivamente polarizada. E espera-se dos Democratas que escolham as batalhas certas. “O truque será encontrar o equilíbrio certo, tanto no tom como no tópico”, referiu esta quarta-feira o editorial do jornal New York Times, que concluiu: “tendo em conta o exemplo sombrio dado pelo Presidente Trump, os líderes Democratas têm agora uma oportunidade política e também uma pesada responsabilidade. Vencer a Câmara dos Representantes é uma coisa. Restaurar alguma sanidade à política Americana e um maior sentido de propósito comum à governança Americana é outra.”

Os Republicanos viram o seu impacto legislativo ser agora reduzido. Com o regresso em força dos Democratas, “bandeiras” como a construção do muro e o fim total do “Obamacare” estão condenadas. Naturalmente, isso traz consigo o risco do discurso de vitimização por parte de Trump e do núcleo republicano nos próximos dois anos. Todavia, a reordenação do Senado poderá deixar uma marca acrescida no Supremo Tribunal, já com maioria conservadora. E isso é um problema sério. “Com um Supremo Tribunal que vai ser conservador durante décadas, os temas das decisões judiciais futuras vão sobretudo ser os prediletos de Donald Trump (…)”, escreveu esta quarta-feira Rui Tavares no jornal Público. E apontarmos baterias à questão do Supremo, alertou ainda o historiador, prende-se com a simples constatação “que a vitória de Trump em 2016 é uma vitória cujas consequências nos vão acompanhar por muito tempo.”

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Trump na ONU. As gargalhadas do descrédito

Bem sabemos que o mundo inteiro está povoado de “criaturas” que se acreditam maiores que o mundo inteiro e vivem num total desfasamento da realidade. Donald Trump é um exemplo notório disso mesmo e, por isso, esta terça-feira teve a resposta que merecia.

O que aconteceu na Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU), quando o Presidente dos Estados Unidos (EUA) fez o seu discurso, é um momento-chave da diplomacia internacional. Atacando a globalização e apregoando o nacionalismo, Trump, que tanto persegue as ditas “fake news”, procurou também ele propagar factos alternativos, ao referir que praticamente nenhuma Administração conseguiu alcançar o que a sua alcançou em menos de dois anos.

Os diplomatas presentes brindaram-no com gargalhadas, reflexo do profundo descrédito que os EUA ganharam no teatro mundial. Porque o crescente isolacionismo americano não é uma mera análise política, é uma escolha política deliberada, assumida, de um homem  que tenta vender uma visão do mundo ultrapassada e minar uma posição global (com todas as variantes ideológicas associadas) que se instalou desde o final da Segunda Guerra, apenas para satisfazer uma base eleitoral que se alimenta das suas mentiras e vê nelas um atenuar dos seus receios. Como sublinha um artigo de opinião do Washington Post, “(…) esta intervenção foi para consumo doméstico, um discurso de campanha contra o mundo para apelar à sua [Trump] base nacionalista”.

No entanto, palavras destas não são recebidas meramente no plano doméstico. Têm eco em sítios muito específicos do mundo e em nichos políticos concretos. Quando o líder da superpotência mundial despeja coisas como “nunca entregaremos a soberania da América a uma burocracia global que não foi eleita, nem presta contas”, em alusão à ONU, outras “criaturas” que se acreditam maiores que o mundo inteiro esfregam as mãos e apontam o dedo para dizer aos vulneráveis: “venham por aqui”.

Mas não. Mais do que nunca, é importante não irmos por aí.