Rex Tillerson: crónica de uma morte anunciada

A notícia chegou mas era como se já tivesse chegado. Há muito que Rex Tillerson e Donald Trump andavam desalinhados — se é que alguma vez chegaram a estar alinhados.

Tal como anuncia boa parte das suas decisões políticas, o Presidente dos Estados Unidos (EUA) não foi de modos e informou a comunidade internacional da demissão de Tillerson do cargo de Secretário de Estado através do Twitter, indicando que o actual Director da CIA, Mike Pompeo, seria o novo chefe da diplomacia norte-americana. O controverso anúncio não veio sem outra polémica associada: aparentemente, o sempre errático Trump não tinha comunicado a decisão ao próprio Tillerson, que ficou a saber que tinha sido despedido como o resto do mundo soube. Aliás, o porta-voz do antigo patrão da petrolífera ExxonMobil afirmou que este tinha “toda a intenção” em permanecer no cargo.

As razões? “Não estávamos de acordo”, explicou o Presidente, numa conferência de imprensa posterior, frisando que os dois até se davam “bastante bem”.

Não bastou, como agora constatamos. O relacionamento entre ambos foi sempre marcado por um braço-de-ferro que nunca se atenuou — praticamente desde que Tillerson pegou na pasta. Mas não foi apenas isso. A forma como este lidou com o Departamento de Estado (DdE) também ditou a sua sentença. Ora vejamos.

O QUE FALHOU?

Existem momentos-chave que testemunham o distanciamento. Como, por exemplo, quando Tillerson aconselhou o Presidente a não abandonar os acordos de Paris ou a não mudar a embaixada dos EUA para Israel; ou quando apelou a Arábia Saudita a interromper a sua intervenção no Catar, mas a Casa Branca decidiu alinhar-se com Riade. Conselhos que caíram em saco roto.

Como se isto não chegasse, Trump sabotou planos do seu chefe para a diplomacia de outras maneiras. Quando Tillerson assumiu ter linhas de comunicação com a Coreia do Norte, o Presidente humilhou-o no Twitter, dizendo que estava a perder o seu tempo. O agora ex-Secretário de Estado também ficou sem dossiers importantes, como as relações com a China, México ou Arábia Saudita, que passaram para a alçada de Jared Kushner, genro do líder da Casa Branca, sublinha o jornal britânico The Economist.

E, a propósito da China, fazemos aqui uma pausa. É óbvio que Xi Jinping, Presidente chinês, aproveitou este vazio na política externa dos EUA. A sua eternização no poder estava há muito calculada, certamente — o problema está na ausência de condenação que devia vir do suposto líder da ordem internacional. E, à falta uma reivindicação diplomática firme, seja de um Secretário de Estado, seja de um Presidente (que, a julgar pelas suas intervenções públicas, prefere optar pela admiração do líder de Pequim), os EUA enviam uma perigosa mensagem, arriscamos até incentivo, a outros que tenham ideias semelhantes.

Posto isto, existe um factor preponderante associado à queda do antigo CEO da Exxon: a forma como se desligou do DdE e dos seus funcionários, que poderiam ser a chave para um empresário sem qualquer experiência política compreender as regras do jogo e movimentar-se na burocracia de Washington. Ao invés, Tillerson preferiu confiar apenas num pequeno núcleo de pessoas estranhas à instituição, evitando reunir-se com os diplomatas mais experientes. Aceitou as exigências da Administração Trump em cortar brutalmente no orçamento (cerca de 30%). Eliminou departamentos inteiros. Nunca nomeou embaixadores para países tão importantes na política externa norte-americana como Arábia Saudita ou Coreia do Sul.

Um cenário que contribuiu para uma enorme vaga de demissões dos mais altos oficiais, bem como para afundar candidaturas de acesso à carreira. Citada pelo jornal online Vox, Elizabeth Saunders, da Universidade George Washington, afirma que Tillerson enfraqueceu o DdE para uma geração inteira. Outros sobem a parada. “Acredito realmente que ele será recordado como um dos piores Secretários de Estado que já tivemos”, disse Eliot Cohen, conselheiro do DdE durante a presidência de George W. Bush. “Ele ficará para a História como o pior Secretário de Estado”, atirou no Twitter Ilan Goldenberg, oficial do DdE na Administração Barack Obama.

Ausente, desalinhado e desenquadrado, a história de Tillerson à frente da diplomacia norte-americana é a história de um homem que chegou a liderar uma das maiores empresas à escala global mas foi incapaz de contrariar os impulsos de Trump, a quem terá mesmo chamado “idiota”, após uma reunião em que o Presidente pediu para aumentar significativamente o arsenal nuclear dos EUA. E, refere a revista Foreign Policy, a queda de Tillerson reavalia “a noção de que o sucesso como CEO” não se trata necessariamente de um cartão-de-visita para servir na Administração dos EUA. Parece claro.

Foi sol de pouca dura, Rex.

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O Trump de Praga

Simplesmente kafkiano. As recentes eleições legislativas da República Checa tiveram de tudo: o partido de um multi-milionário ganhou, os tradicionais tiveram resultados desastrosos, os piratas ficaram em terceiro, os eurocéticos e a extrema-direita voltaram a marcar presença.

A vitória dos populistas do ANO colocam o segundo homem mais rico do país na rota para se tornar Primeiro-ministro. Andrej Babis é uma espécie de cruzamento entre Silvio Berlusconi e Donald Trump. Partilha o poder mediático do italiano e o discurso anti-sistémico do norte-americano.

É precisamente por aí que devemos seguir uma vez que estas eleições foram, acima de tudo, uma corrida contra o sistema. Os social-democratas do CSSD, que eram o primeiro partido, passaram de 20,5% dos votos em 2013, para uns simpáticos 7,2%. O Partido Cívico e Democrático (ODS), marcadamente abti-União Europeia, ficou em segundo lugar. Em contrapartida, a formação dos piratas revela-se pro-Bruxelas e luta pela transparência e por um governo electrónico. Logo a seguir está a extrema-direita do Liberdade e Democracia Direta (SPD), liderada por um checo-japonês islamofóbico e anti-imigração, que pretende pôr fim à livre circulação e ainda um referendo sobre a adesão do país ao bloco comunitário. Finalmente, o próximo chefe de executivo, Babis, gosta de ferrar nos partidos tradicionais, a quem acusa de terem especuladores corruptos. Ele, que entre 2014 e 2017, foi Ministro das Finanças, importa recordar.

Havia então razões para a mensagem anti-sistema prevalecer de forma tão acentuada? Só os checos conseguirão responder. A taxa de desemprego é baixa e a economia regista um belo crescimento. Os eurocéticos sabem que têm sonhos irrealistas: 80% das exportações da República Checa são para a zona euro e dizem muito sobre a sua dependência económica.

Mesmo que ninguém saiba ao certo qual a coligação que vai sair dali, a eleição de Babis tem um riscos pelo populismo que este emana. O facto de ser dono de vários jornais e outros órgãos mediáticos suscitam receios de infiltrações propagandísticas ante a fragilidade das instituições nacionais. Além disso, o multi-milionário vê com bons olhos o cargo de Primeiro-ministro: vai permitir-lhe não ter que responder em tribunal, depois de ter sido condenado por defraudar a UE, quando o parlamento lhe retirou imunidade.

Não obstante a sua clara diferença, as eleições checas reafirmam bem as convulsõe da Europa Central: um eleitorado cada vez mais fragmentado (nove partidos conseguiram assentos parlamentares), como já tinha sido o caso no Bundestag alemão; um movimento populista que continua a infiltrar-se na cena política. Praga reforça assim um padrão que já verificámos na Polónia, na Hungria e, mais recentemente, na Alemanha ou na Áustria.