Isolar o Irão: a reviravolta de Trump

Na semana de visitas fora dos Estados Unidos (EUA), ficou claro que Donald Trump tomou um partido. Depois de Barack Obama ter tentado, com as devidas cautelas, (re)incluir o Irão na “conversa”, o novo Presidente norte-americano foi peremptório a mostrar que não está para aí virado.

A agenda política já deixava antever: as duas primeiras deslocações ao estrangeiro da presidência Trump foram Arábia Saudita e Israel – dois dos principais rivais de Teerão.

E, com apenas um discurso, o homem-forte da Casa Branca comprometeu aquilo que o seu antecessor tentou construir ao longo de dois mandatos. Em suma, Trump apelou ao (re)isolamento dos iranianos. Isto mesmo após os eleitores terem reeleito Rouhani (um dos nomes-chave por detrás da assinatura do acordo nuclear), como Presidente. Uma escolha nas urnas que foi lida pelos especialistas internacionais como um desejo de continuidade do diálogo com o resto do mundo.

Adiantam, igualmente, que a predisposição reformista do líder iraniano venceu a via mais autoritária do adversário, Ebrahim Raisi, tido como o protegido da autoridade máxima no Irão, o ayatollah Khameini. A observação é pertinente porque o próprio Rouhani não esconde a visão que tem do país para o futuro: no discurso de vitória, sublinhou precisamente o “caminho de compromisso com o mundo”.

Façamos já o esclarecimento: no âmbito da política externa, é preferível ter Teerão a colaborar com os EUA que, por ora, continuam a liderar a ordem internacional. Especialmente numa região do mundo, onde os norte-americanos têm realmente poucos amigos. Mas estas relações cordiais não devem passar disto, tal como não devem ser desprovidas de uma constante monitorização do que tem de ser resolvido no país: violação dos direitos humanos, escassas liberdades civis, desigualdade de género. E, no palco mundial, o sangrento patrocínio ao regime de Assad, na Síria, ou a outras “elites” tão condenáveis como o Hezbollah, no Líbano. Rouhani sabe: se quer verdadeiramente um “compromisso”, as contrapartidas são claras.

O problema do apelo de Trump não foi somente a mensagem. Também foi o local onde o fez: Riade, capital da Arábia Saudita. Logicamente, o plano de isolar os iranianos fez delirar os líderes sunitas presentes, que têm todo o interesse em bloquear a propagação do Islão xiita no contexto regional – e onde Teerão tem interferido regularmente, direta ou indiretamente (além de Síria e Líbano, falamos igualmente no Iémen e no Iraque).

E as hipócritas palavras do Presidente republicano, reforçam a longa hipocrisia que os norte-americanos mantêm com os sauditas. Não é segredo que este relacionamento está blindado pelo cheiro do dinheiro. Aliás, a visita ao reino serviu para firmar o maior acordo de armamento na História dos EUA. Escreveu David Gardner, num artigo de opinião do Financial Times, que “a Casa Saudita e a Casa Trump fazem um partido”, porque ambos “são transaccionais e dinásticos”.

Portanto, esqueceu Trump que a doutrina wahabista, impulsionada pela Arábia Saudita, partilha muitos valores totalitários que também estão nas ideologias de grupos terroristas. Esqueceu Trump, que os EUA e o Irão tentam travar um mesmo inimigo, o autoproclamado Estado Islâmico, no Iraque e na Síria. Esqueceu Trump que os sauditas não são propriamente um exemplo de democracia.

Finalmente, esqueceu Trump que a História traz sempre os seus ecos. Quando liderava a Casa Branca, George W. Bush encostou o Presidente iraniano de então, Mohammed Khatami, que tentava reatar o diálogo com o Ocidente. Já em 2002, Teerão foi colocada no “eixo do mal” e foi a machadada num acordo sobre o nuclear. Os iranianos tentaram pressionar, fazendo concessões, mas esbarraram no muro republicano. Seguiu-se Mahmoud Ahmadinejad, figura mais hóstil, que via Washington como bem sabemos.

 

 

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