O erro de Mélenchon

Cinco anos depois, voltou a ser a quarta escolha mas Jean-Luc Mélenchon, líder do movimento France Insoumise, podia ter ficado satisfeito com a campanha. Afinal de contas, do alto dos seus 19,6% de votos nestas presidenciais, o candidato quase duplicou o número de franceses que apostaram nele comparativamente a 2012. Por outras palavras, foi a escolha de 7 milhões de pessoas. E a sua plataforma mimetiza o fulgor de frentes semelhantes, como o Podemos de Pablo Iglesias em Espanha, ou o Syriza de Alexis Tsipras na Grécia. Mas engane-se quem pensar que este artigo é sobre a crise de identidade da esquerda europeia.

Mélenchon podia ter ficado satisfeito com o resultado. Mas não ficou, atendendo ao discurso que apresentou na noite da primeira volta. “Mediacratas e oligarcas rejubilam”, foi um dos pontapés de saída, proferido em tom ressabiado por um candidato que só iria respeitar números oficiais.

O mais importante, contudo, o parágrafo que ficará gravado na memória colectiva, foi a decisão de não apelar ao voto em Emmanuel Macron. “Não recebi nenhuma indicação das 450 mil pessoas que apresentaram a minha candidatura”, justificou no Domingo passado. Se formos pelo argumento da proximidade com o eleitor, a jogada é inteligente. Matreira. E seria até legítima, se França tivesse que decidir entre os tradicionais partidos do arco governativo.

O problema, bem sabemos, é o contexto inédito. O projecto do Front National (FN) e Marine Le Pen, no seu todo, está a um mundo de distância da normalidade. E a hora exige responsabilidade política, face à possibilidade do país cair nos meandros da extrema-direita. Benoît Hamon, no campo socialista, percebeu isso e pôs de parte rivalidades e ódios pessoais (que os tinha), apelando ao voto em Macron. François Fillon, cujo partido até partilha uma linha-dura com o FN em matéria de segurança, por exemplo, também compreendeu isso. Até Manuel Valls, que alegadamente chamou “traidor” ao jovem candidato, não fugiu à vaga de apelos.

Sejamos francos. O movimento de Mélenchon defende linhas honráveis, quando pensamos nas propostas para as políticas ecológicas, a igualdade salarial entre homens e mulheres, o acolhimento de refugiados. Especialmente quando a União Europeia mostra-se incapaz em coordenar uma resposta humanista e eficaz ao drama dos migrantes, quando o mundo precisa do exemplo das grandes potências para liderar o combate ao aquecimento global.

Nós não devemos ir por aí, mas há quem faça pontes entre as bandeiras de Mélenchon e as da extrema-direita. É verdade: ambos pretendem abandonar os tratados europeus, o acordo de livre circulação ou a NATO, além de outras matérias como a reforma aos 60 anos ou a igualdade salarial ao nível do género. Le Pen até começou a distribuir panfletos sublinhando esta partilha de ideias, tentando seduzir apoiantes do candidato esquerdista. As sua bases eleitorais, é verdade, têm traços socioculturais semelhantes.

Mas não devemos ir por aí. A decisão de não apelar ao voto em Macron teve conotação ideológica, numa altura em que não há espaço para isso. Mélenchon, inconformado com os resultados, voz da ponta mais à esquerda do espectro, não suportou a ideia de ter que apoiar um ex-banqueiro, um produto do sistema. Quase metade dos seus eleitores naõ tenciona votar na segunda volta. E a abstenção é uma coisa perigosa nas contas finais. Como lembra um apoiante do líder esquerdista que irá votar no jovem candidato, numa carta aberta publicada pelo Libération, Macron “será o garante das instituições através das quais continuarei opor-me à sua política”. E a decisão é exatamente essa: preservar o sistema democrático, bem como as liberdades que este protege, ou entrar num novo ciclo de total incerteza. Nesta hora, populismo não se combate com populismo. E Mélenchon devia saber isso.

 

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