Macron. Porque não basta vencer a Presidência?

Ao fim de quase 50 anos, os franceses chegaram ao limite. Cansaram-se dos partidos tradicionais. Pela primeira vez na segunda volta, não há socialistas nem republicanos, a disputar a Presidência. E a população, que se fartou do sistema, depara-se com um duelo entre duas vozes que perceberam a mensagem – e prometem caminhos fundamentalmente distintos. Abertura ou isolamento, liberalismo ou proteccionismo, a União Europeia ou o nacionalismo. França está fracturada em dois campos antagónicos. Ou, como descreveu o editorial do jornal Ouest-France, “os franceses que se sentem estranhos uns para os outros”.

Parece que não, mas a escolha de Emmanuel Macron ilustra a tendência pelo anti-sistema. O jovem candidato sobrepôs-se à alternância clássica dos partidos e mostrou que a experiência em cargos públicos não significa grande coisa para os franceses neste momento. Sim, foi conselheiro de François Hollande, e sim, foi Ministro da Economia. Mas abandonou a linha socialista e avançou com o próprio projecto.

É óbvio que a verdadeira missão agora passa por reunir os votos dos candidatos que ficaram para trás na primeira volta e vencer a contagem final. Mas o fundador da plataforma En Marche! tem de, ao mesmo tempo, preocupar-se em cimentar uma maioria para as eleições legislativas de Junho. A Frente Nacional vai conquistar lugares na Assembleia, podendo até chegar a números que transformem o partido de extrema-direita numa força bloqueadora. Não nos esqueçamos que, para lá de Macron, existem quase 7,5 milhões de vozes que cantaram Marine Le Pen. E muitos outros milhões deverão votar nela quando chegar a segunda volta.

Face a isto – e se quiser presidir com poder para governar -, o ex-Ministro precisa de ganhar as presidenciais com estrondo. Pelo menos 20% de vantagem sobre a adversária, segundo acreditam dois politólogos citados pelo jornal Libération, será o necessário para olhar para as legislativas com alguma tranquilidade. As últimas sondagens mostram que ultrapassa os 60%.

Os apelos de François Fillon ou Benoît Hamon, entre outras figuras do espectro político, já apelaram ao voto (útil) em Macron, com o claro objetivo de conter a extrema-direita. Ora, este precisa de 577 candidatos para o próximo escrutínio eleitoral. Metade destes seriam da sociedade civil. Outra parte seria preenchida por militantes da direita e do Partido Socialista francês (PSF), como Macron já admitiu, desde que partilhem o mesmo espírito renovador que ele. Mas isto pode ser um apelo envenenado. Acossados pelo mandato de Hollande, acossados pelo fracasso da candidatura de Hamon, os socialistas não serão uma ameaça. Agora, o partido de Fillon, que apesar dos escândalos chegou aos 20% na primeira volta, quererá protagonismo nas legislativas – ou vingança.

Depois das presidenciais, se estes partidos, sobretudo os republicanos, não apoiarem Macron, França poderá mergulhar num panorama político ambíguo. A tudo isto, acresce o “factor Mélenchon”, que não se juntou à vaga de apelos ao voto no candidato liberal. O líder da France Insoumise garantiu uns impressionantes 19,6% nestas eleições e conta capitalizá-los nas legislativas, especialmente com os socialistas arrasados.

 

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