O que retirar das eleições na Holanda?

Para quem olhou de fora, estas eleições eram mais um teste à Europa, mas os holandeses – com uma fortíssima taxa de participação, aliás – mostraram que a discussão não era realmente essa. Para lá de Geert Wilders e da derrota da extrema-direita, o espectro político fragmentou-se mais do que nunca e o eleitorado dispersou-se, fugindo aos nomes do costume. Começamos precisamente por aí.

O problema está agora mesmo a começar. Foram umas eleições com 28 partidos inscritos e as mais pequenas formações almejaram segmentos específicos da população eleitoral. A sério, houve tudo: o partido dos imigrantes para os imigrantes, o partido para os reformados, o partido dos defensores de animais. E o atual Primeiro-ministro Rutte ficou longe, muito longe da maioria para governar. O tecto de 76 deputados obriga a uma coligação inédita de cinco entidades. Cinco. Um processo de formação que poderá demorar meses.

Outro detalhe é o fracasso do Partido Trabalhista (do Presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem e os parceiros de coligação de Rutte até aqui), o grande derrotado destas eleições. Passou de 38 deputados para apenas nove e confirma a crise de identidade da esquerda europeia, depois dos casos da Grécia ou Espanha – e, até certo ponto, de França, onde os socialistas estarão ausentes da segunda volta das presidenciais, penalizados pela liderança de François Hollande.

Em contraste, os verdes foram uma das surpresas da noite, com números históricos. Cresceram de quatro para 16 lugares. Liderados pelo jovem Jesse Klaver, terão de tomar uma decisão: coligarem-se a Rutte, de direita, ou não. Isto porque têm o exemplo dos trabalhistas a ter em conta.

Finalmente, se nos for permitido adoptar uma leitura mais simplista, gostaríamos de avaliar os resultados holandeses sob duas interpretações. Por um lado, Geert Wilders e a extrema-direita saem, efetivamente, derrotados. Paralelamente, a União Europeia consegue respirar de alívio mas durante pouco tempo. Daqui a um mês, há nova ronda em França – onde uma tal de Marine Le Pen mede forças com o “apartidário” Emmanuel Macron. Por outro lado, o populismo voltou a fracturar a representação política tradicional. A verdade é que Wilders obrigou os adversários, como Rutte, a endurecer o tom para chegar a nichos de eleitorado mais distantes, colocando na agenda temas como a imigração ou a segurança. E quer queiramos, quer não, isso não acontecerá apenas na Holanda.

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