Quem é Benoît Hamon e o que propõe?

O candidato socialista à presidência de França está de visita a Lisboa este fim-de-semana. À imagem da escolha de François Fillon nas primárias da direita, também ele foi o “candidato surpresa” (assim rotulou o jornal Ouest-France) das socialistas, deixando para trás Manuel Valls, ex-Primeiro-Ministro francês, numa vitória confortável.

Foi Ministro da Educação numa passagem-relâmpago. Liderou a pasta apenas durante cinco meses (147 dias para ser mais preciso, entre Abril e Agosto de 2014), sob o mandato de François Hollande e no governo de Valls, precisamente. Desentendimentos quanto às políticas económicas do executivo estiveram na base da demissão, alegou na altura. Retomou então a atividade como deputado e “juntou-se” a um grupo de 40 socialistas que lutaram contra as propostas do próprio governo nos últimos dois anos.

Dizem que Hamon é a “resposta francesa” (segundo a versão europeia do jornal Politico) a Jeremy Corbyn, atual líder do Partido Trabalhista britânico. Aliás, já afirmou que, tanto o político britânico como Bernie Sanders, candidato à presidência dos Estados Unidos nas últimas eleições, são duas fontes de inspiração. A sua campanha tem-se caracterizado por propostas extravagantes. É o caso da legalização da marijuana, para taxar as vendas; do imposto sobre robots (basicamente, atribuir a um trabalhador robot um salário fictício e obrigar a empresa a pagar imposto por isso); ou pagar a todos os franceses um subsídio de vida de 750 euros.

Os seus adversários acusam-no de vender sonhos impossíveis. Também ele já reconheceu que se tratam de projetos dispendiosos para o estado, mas exequíveis. Defende que as vendas de marijuana e o rendimento dos impostos sobre robots iriam cobrir largamente a despesa do subsídio de vida. O que faltasse seria coberto pelo aumento de impostos aos mais ricos.

Mas no topo da agenda está uma reforma à Constituição: a atual Vª República seria substituída por uma VIª República. A ideia é fazer o Presidente prestar mais contas ao Parlamento, limitando o exercício do cargo a um único mandato de sete anos. Além de conceder maior poder à população, nomeadamente em matéria de legislação – uma petição de 450 mil assinaturas seria suficiente para ser discutida pelos deputados, por exemplo. Por outro lado, visa reformar as instituições, sobretudo na limitação do artigo 49.3, que permite ao Presidente adotar uma lei sem voto parlamentar, às matérias orçamentais.

Aí, começaria o seu exercício presidencial. O ponto de partida está na anulação da reforma laboral de Hollande, a ser substituída por uma nova legislação em que o tempo de trabalho seria ainda mais reduzido (atualmente, 35 horas semanais). Os adversários defendem que a medida desincentiva a vida laboral.

O programa de Hamon mostra claramente uma vontade de regressar às bases socialistas, após um mandato de Hollande marcado por reformas distantes das linhas partidárias – não fosse ele, aliás, militante há mais de três décadas e grande admirador do antigo Presidente François Mitterrand (mencionou-o, aliás, no discurso de vitória das primárias). A nível de propostas fiscais, quer criar um imposto único sobre o património, conceder direito de veto aos salariados sobre as escolhas estratégicas da empresa nos conselhos de administração, bem como a igualdade salarial entre homens e mulheres. O projecto ecológico também é ambicioso, com a saída do diesel e 50% de energias renováveis até 2025. Quanto a Bruxelas, tendo sido eurodeputado durante cinco anos, recusa manter o défice orçamental no limite de 3%, como estipulado no Tratado de Maastricht, planeia suspender o acordo de comércio-livre com o Canadá e harmonizar a dívida contraída por alguns Estados-Membros, como Portugal, desde 2008. Na equipa de campanha, tem Thomas Piketty, autor do best-seller O capital no século XXI, que contudo não será responsável pelo programa económico.

Porém, a grande missão de Hamon está na raíz. Atualmente, tem a difícil tarefa de unir um Partido Socialista que ficou ainda mais dividido depois das primárias e com poucas probabilidades de marcar presença na segunda volta – o que seria histórico na Vª República. Por isso, tenta não apenas seduzir o eleitorado que prefere “fugir” para Emmanuel Macron (apoiantes de Valls, deputados socialistas desiludidos com o desfecho das primárias, inclusivamente), como apelar à ala mais esquerda que deposita esperanças no candidato ecologista Jean-Luc Mélenchon. Quando venceu a nomeação presidencial, piscou-lhe o olho, numa perspetiva de unir os esquerdistas. Mas, há dias, este já deixou claro que não está para aí virado.

Tem um programa talhado para assinalar um regresso ao socialismo e conquistar todo o eleitorado de esquerda. Mas aqui encontra-se igualmente a fonte de críticas recentes. Acusam Hamon de não pretender tanto tornar-se presidente, mas sim consolidar-se como a figura de proa da esquerda depois das eleições – olhando, logicamente, para as presidenciais de 2022.

 

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s